Solidão da mulher negra e níveis de preterimento

Tenho uma conhecida, que completou 30 anos semana passada, negra retinta, gorda, cabelo 4c, traços negróides acentuados, marcas de espinha no rosto. Nunca foi beijada. Nunca beijou ninguém. O que dirá sexo, não sabe o que é isso, só tem ideia do que é o contato e a troca de sensações entre dois corpos, através de imagens na TV, revistas, de ouvir conversas de terceiros. Disse que não se importa mais, que até prefere ficar sozinha, porque homens são todos uns babacas que não prestam. Esse conceito ela aprendeu vivendo, sendo humilhada, sofrendo deboche, desde a pré escola até o último ano escolar. Se sente desconfortável até hoje perto de qualquer um do sexo oposto, não faz contato visual, para de conversar, como se estivesse com medo de ser machucada novamente, como foi a vida inteira. E quando ela fala que não se importa, que já passou, que já se acostumou com a ideia de que não veio pra esse mundo pra ter nenhum tipo de relacionamento, que cuidar do cachorro e da mãe é destino, me parece que nem ela acredita no que diz, e eu só consigo olhar no fundo daqueles olhos e enxergar dor, dor e mais dor.

Não é uma história que eu criei para ilustrar o assunto que eu vou falar. Infelizmente é real.

” Triste né. Coitada. Ainda bem que eu não sou preterida, não sei o que é solidão, sempre tem alguém querendo uma transa, não vou embora sozinha da balada.”

Eu já tive esse discurso, e estou vendo outras mulheres negras o reproduzirem para deslegitimar a pauta da solidão. E digo mais, com ares de superioridade, como se fossem ou estivessem muito melhor que as outras que são totalmente preteridas.

Melhor como?

(Antes de continuar lendo, saiba que eu não tenho como abordar essa parte de forma bonitinha.)

Sendo lanchinho da madrugada? Horrível essa expressão, eu sei, mas eles usam. Levam a branca no cinema, barzinho, restaurante, e com vc pedem pra passar uma da manhã na sua casa, n tem ninguém acordado, ninguém na rua, estaciona o carro em qualquer lugar depois e está ótimo.

Ou recebendo proposta pra ser amante? Está ficando com o cara faz tempo, achando que o negócio vai evoluir, ele diz que começou a namorar uma branca, mas vcs podem continuar se vendo escondido. Que lindo.

Ou ele fingindo que não te conhece na frente dos amigos? Ou ele dizendo que os vizinhos não podem te ver? São fofoqueiros, melhor evitar falatório.

Poderia continuar, e não adianta tentar criar desculpas para estas situações, porque vc sabe o que está acontecendo, a verdade é dura mas temos que encarar: a solidão da mulher negra.

Então quando entrarmos nesta temática, não tente tirar o corpo fora, achando que não é com vc, isso afeta tds nós, de maneiras distintas. Não se ache superior à outra irmã preterida cruelmente, pois senão acontece com vc, então é vista apenas como depósito de esperma. Pesado né? Eu sei. A mulher negra, no sentido coletivo, ainda não é enxergada como um ser digno de amor, que merece cuidado, que merece respeito, que não tem que ser forte o tempo todo. E é por isso que estamos lutando, agora se depois de td essa análise, vc ainda achar que é melhor que outras, eu só posso devolver o olhar penoso e dizer:

Triste né. Coitada

Por: Alessandra Eduardo

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24 comentários

  1. Quando se põe o dedo nessa ferida, dói, em maior ou menor escala, mas dói. Para algumas de nós, é suficiente trabalhar com a autoestima. Para muitas, no entanto, a questão parece não ter fim.

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  2. Tocar neste assunto é difícil. Pq revela um lado perverso e contemporâneo do racismo… Um câncer social que que envolve muita gente. Recente fui a Salvador e tive uma conversa fervorosa. Pq se de um lado assumimos um lugar de desconforto e de solidão… Por outro somos levad@s a banalizar o romance… No calor da emoção este meu amigo afirmou que as mulheres negras tem ódio dos homens negros e eu resinifiquei sua fala… Já passou… Hoje temos pena. Pq se por um lado carregamos o carma da solidão… Por outro estamos mais empoderadas e aprendemos a conviver com a solidão. Não que isto seja bom ou incrível… Fantástico… Mas… Antes só que mal acompanhada… Não ser capaz de produzir seu próprio sustento… E se ver obrigado a investir em uma relação como alternativa de sobrevivência. E de tamanha infelicidade e descontento e ter que buscar em um corpo negro… Solitário…. Mas livre… O gozo… E o sentimento de ser sentir gente… Algo assim… Não coisificado.

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  3. Ótima abordagem. Triste verdade. Nós mulheres negras temos que dar um basta a esse tipo de atitude dos homens, não temos que aceitar essa humilhação, essa objetificação. Vamos expor, debater e aprofundar essa temática para que tenha fim essa realidade!

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  4. Sabe… Desde que me conheco por gente, desde muito pequena sentia que a luta seria ardua perante os ignorantes racistas de minha epoca ( tenho 53 anos) porem, tinha uma arvore genealogica de familia muito boa a me orgulhar…Vovo’ mineira, analfabeta migrou para Sao Paulo no intuito de dar um futuro melhor p seus filhos e venceu! Minha mae, meu Pai, sempre foram os melhores no que se propuseram… Eu como neta e filha sigo esses exemplos com orgulho passando estes conceitos para meus 03 filhos que nao me decepcionam…(sao formadas em faculdade como eu ) Ninguem e melhor que ninguem milito nesta linha de raciocinio … Abs.

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  5. AMEI! Essa garota mostrou que ela é FODA! Este tema é muito controverso, pois existem muitos fatores envolvidos na solidão da mulher negra que é vista como ” a carne mais barata do mercado”. Para agravar a situação, como se o abuso sexual praticado pelos homens brancos, os homens negros, seguindo a mesma lógica de prestígio dado pelo cruzamento genealógico com indivíduo branco, escolhem as mulheres mais claras. E o fruto dos relacionamentos inter-raciais sempre seguem o processo de embranquecimento . #RacismoContraEmbranquecimentoPredatório. Sou uma coitada solutària. Se servi de depósito de esperma, me tiraram o direito a ter consciência disto e gritar meu NÃO, a pulso de drogas ilícitas misturadas as coisas que eu consumia como: água mineral, leite, outros alimentos. Perdi o fim da minha juventude com uma assombração branca que detonou minha vida sentimental #BroncadeBranci.

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  6. Garota, adorei o texto!
    Não pare de escrever. Peço que siga firme e forte. Fora os pequeninos sarcasmos contidos no texto pra ver se a ficha das negras que deslegitimam essa pauta caia de vez!
    Axé
    Mojubá

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  7. Realidade nua e crua. E é uma dor vivida na pele. O desejo de ter alguém que lhe ame e respeite com o ser humano faz cair em “golpes baixos”. Faz acreditar que aquela pessoa que está ali te olhando, depois se aproxima.. elogia “os lábios carnudos que dão vontade de beijar”. Elogia a cor da sua pele pq “vcs transam muito gostoso”. Elogiam o fato de vc ser gorda pq “tem fetiche”… e de repente vc se permite ser tocada com um carinho surreal… sente que possivelmente está começando um romance… e permite-se a tudo em nome de um amor que durará para sempre.. e dura até o momento da última gozada dele. Desculpem os termos.. mas é a realidade vivida por centenas ou milhares de mulheres , “negra retinta, gorda, cabelo 4c, traços negróides acentuados, marcas de espinha no rosto. ” seria maravilhoso se as que nunca foram beijadas soubessem do que se livraram. Das decepções, dos sofrimentos.. dos medos de pensar: pq ele fez isso. O que a família iria pensar. O que minha religião vai dizer. …
    Mas não ter nenhum tipo de afeto e nenhum tipo de contato físico também é a pior sensação do mundo. Imaginar que alguns lhe acham “intocável”… feliz em saber que somos compreendidas. Obrigada pelo texto

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  8. Senti sempre o racismo mas consequi alquem especial na minha vida a 28 anos criamos tres filhos mas sei que muitas das minhas amugas sao só quando comecei a namorar me disseram nao vai dar certo e apostarao 10 cruzados que ele me deixava. E eu disse eu dobro a aposta e caso com ele e uma luta sem fim com uma parte. Da familia dele querendo que de certo e a outra apostando pra dar errado e eu ate hoje dobrando as apostas mas na verdade ja amei sozinha. Por varios anos hoje o companheirismo e bom amor na verdade eu tenho.por meus filhos e por mim .lagrimas .

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  9. Dói…mas é a dura realidade…mas temos que tomar nas nossas mãos e sermos protagonistas da nossa própria historia, sem ficar chorando ou mendigando pelos cantos..chega…temos que olhar no espelho e saber quem somos….e não aceitar nada a menos do que merecemos…bem tipo assim, engolir o choro…levantar a cabeça e seguir em frente…

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  10. Texto intenso. Sentir todas as minhas ancestrais, tata,biza, vó, mãe, eu e minhas irmãs, amigas…Fomos educadas para sermos fortes e isso significava: obediência, silêncio, sem choro, aceitação…e tudo que nos acontecia era ‘culpa’ nossa! Então, nessa linha algumas agulhadas nos tiraram o direito de sermos mulher. mas, estávamos a muito tempo construindo o nosso enlace desde do momento que rasgamos pedaços das nossas saias para fazermos abaiomys para as nossas filhas, desde que tivemos coragem de lançar nossos filhos ao mar para não passar por sofrimentos que até então era desconhecido, mas, sabíamos que seria cruel e desumano. Somos e vivemos de fato o devir mulher, borramos, negociamos, montamos estratégias para nos mantermos vivas. Quando as mulheres brancas iam para o trabalho as nossas já estavam de pé a muito tempo cuidando para que a mulher branca não se atrasasse para o trabalho. Os quitutes nos balaios vendidos em porta em porta, nas feiras, as trouxas de roupas lavadas, comidas feitas…entre lugares que nos colocaram e resistimos aos abusos dos esposos brancos das senhoras…resistimos, resistimos, resistimos até o falso amor que certos homens negros diziam ter por nós, mas, quando aparece uma mulher de pele clara, logo, logo o rapaz tenta nos colocar em segunda opção. Crueldade, crueldade, crueldade achar que nós não temos direito de ser amada, de sair de mãos dadas com seu preto, de ser MULHER NEGRA, livre, livre, livre de ser vista como objeto sexual, de ser vista muitas vezes pelo seu companheiro como a segunda mãe, de ser invisibilizada, de ser taxada como a MULA, sim a MULATA GOSTOSA… A luta continua diariamente pois, sentimos que mudaram a roupagem dos personagens e os dispositivos de poder estão tentando ludibriar a nosso povo mas, estamos resistindo e nos formando e voltando para o nosso gueto e tirando a venda e abrindo caminhos a facão para os noss@s adentrarem e sentarem com toda a bagagem ancestral nos bancos das universidades. Seguimos lutando nessa babilônia que nos riscaram em nosso corpo\alma o mapa da maldita diáspora. Sangrei na leitura do texto e já estou costurando com linhas da resistência e agulha da luta diária pelas nossas irmãs. Obrigada!

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