Carolina Maria de Jesus

Mulher negra agressiva, teve 3 filhos, cada um de um pai diferente, (sendo um de um homem branco e rico) detestava os outros negros de sua classe social… Não pera.
– De quem vc está falando?
– De Carolina Maria de Jesus.
– Baseada na visão de quem?
– Um dito intelectual homem branco..Hum, não né?
– Não, fala vc.
– Ok.
Mudança de planos pessoal, homem branco sai daí e me passa esse microfone, e o mocinho ali vira esses holofotes pra cá. Pra mim não né! Pra ela!
-Senhoras e senhores, com humildade e máximo respeito, tenho a honra de começar este especial (sob a ótica de uma mulher negra), com ela:
CAROLINA MARIA DE JESUS

Nasce em 1914, em Minas gerais em uma comunidade rural. Um rico fazendeiro, decidiu pagar os estudos dela e de outras crianças pobres do bairro. Então aos 7 anos ela entra para a vida escolar e permanece por dois anos, aprendendo assim a ler e escrever. Quando ela faz 23 anos, sua mãe falece, e ela então muda para São Paulo em busca de uma vida melhor, porém após anos sem sucesso acaba chegando a favela do Canindé já grávida de um marinheiro português que a abandona. Ela então constrói sua própria casa, usando madeira, lata e qualquer coisa que pudesse encontrar, saía td noite para coletar papel afim de sustentar seus filhos.Filhos? Sim ela teve mais dois envolvimentos amorosos, engravidou de ambos, mas não teve nenhum relacionamento estável durante sua vida, dizia que preferia ficar sozinha..

Vamos dar uma acelerada no tempo, (obviamente que nesse período foi de muita luta e miséria), nossa heroína agora com 41 anos (1955), começa a escrever um diário sobre a vida na favela, nas folhas de revistas e cadernos antigos que encontrava no lixo. E é desse diário que surge seu mais famoso e tocante livro : Quarto de despejo. Vamos dar uma olhada rasa por ele…
A FOME é tema constante em seus escritos, o dinheiro que ela conseguia catando sucata e papelão nas ruas, na maioria das vezes não era suficiente, e não tendo o que comer, ela e os filhos iam dormir com fome. Pra tentar driblar essa situação, pegava verduras e legumes descartados na feira e mercados, também pegava ossos em um frigorífico e com eles fazia uma sopa para as crianças. Vou transcrever alguns trechos abaixo:
”A tontura do álcool nos impede de cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago.”
“Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves, tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos.”
“Deixei o leito furiosa. Com vontade de quebrar e destruir tudo. Porque eu tinha só feijão e sal. E amanhã é domingo.”
Pesado hein. Continuemos. Essa mulher não odiava os outros negros de sua classe social, ela era uma inconformada! Ela queria mudanças! Ela queria sair dali! Ela queria não sentir mais fome! E através da escrita que ela encontrava uma válvula de escape da realidade em que  vivia. Mas pq o nome do livro é quarto de despejo? Pelas palavras da mesma:
”Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenha a impressão que sou um objeto fora do uso, digno de estar num quarto de despejo.”
(Vou situar vcs, era um período recente do pós ”abolição”, o estado não adotou nenhuma medida de inserção dessa massa de pessoas negras na sociedade, logo foram se formando as favelas, sem saneamento básico, com propagação de doenças, desnutrição..O plano era sumir com os pretos em 100 anos, os que não morressem, seriam extintos pela miscigenação através da política do branqueamento. Que foi? Negrada do mimimi de olho arregalado, branquitude sem graça deixando o recinto..Isso eles não contam nas escolas né? Outro dia falo deste assunto, vamos voltar a Dona Carol.)
Então era esta sensação que ela tinha, de estar num quarto de despejo, a favela era a sujeira que ia pra debaixo do lindo tapete, vivia-se o governo de JK, Brasília sendo construída, pontes, túneis, um Brasil em desenvolvimento, só que não para todos.
Essa mulher negra já escrevia sobre isso, foi descoberta por um jornalista, teve seu livro publicado que se tornou um best-seller na América do Norte e na Europa, foi traduzido para treze idiomas. É considerada uma das primeiras escritoras negras brasileiras. Morreu aos 63 anos de insuficiência respiratória, mas não foi esquecida. Um certo escritor disse sobre a foto em que ela aparece ao lado de Clarice Lispector: ‘Carolina parece tensa e fora de lugar, como se alguém tivesse arrastado a empregada doméstica de Clarice para dentro do quadro.’
Só tenho uma coisa a dizer pra vc Benjamim Moser:
Vai pro inferno.
E viva nossas mulheres negras guerreiras!
Viva Carolina Maria de Jesus!
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