O terror das patroas

”A minha mãe foi empregada doméstica num bairro de luxo aqui em Belo Horizonte e ela tinha que limpar uma casa enorme sozinha. A filha da patroa ficava jogando calcinhas sujas de sangue pelo quarto para a minha mãe limpar e ela dizia que as calcinhas só podiam ser lavadas à mão. Então a minha mãe ia lá e era obrigada a ficar limpando a calcinha de MENSTRUAÇÃO da menina NA MÃO. Eu lembro da minha mãe chegando em casa todos os dias chorando e se lamentando pela humilhação, mas infelizmente precisávamos do emprego dela.”
 
– Antigamente era complicado né? Olha as humilhações que uma mulher preta tinha que passar em casa de família..
 
Antigamente nada! Esse relato é recente! Foi retirado da página ‘Eu empregada doméstica’. Esse tipo de abuso ainda continua acontecendo. E estes costumes da família tradicional brasileira (leia branca) não são de hoje. Mas na história sempre houveram mulheres negras que se revoltaram. E se tratando da luta pelos direitos das empregadas domésticas, se destaca ela:
 
LAUDELINA DE CAMPOS MELO
 
Nasceu no ano de 1904 (foca na data, 16 anos após o ”fim” da escravidão. O estado lavou as mãos, os pretos não são mais escravos então agora que se virem. Só frisando como isso influenciava (e influencia) a vida de uma pessoa negra neste país) era filha de uma empregada doméstica e de um lenhador.

Começou a trabalhar de empregada doméstica aos SETE anos de idade, aos doze perdeu o pai de maneira trágica:ele foi atingido por uma árvore que cortava. Então teve que abandonar os estudos para cuidar dos cinco irmãos para que sua mãe fosse trabalhar fora, e para complementar a renda vendiam doces na rua.
 
Começou a militar muito cedo, aos 16 anos tornou se presidente do Clube 13 de maio, que promovia atividades culturais e políticas para os negros de sua cidade.Casou-se teve dois filhos e separou-se.Sempre trabalhando de empregada doméstica e inconformada com o racismo, as humilhações e a péssima remuneração da categoria. Apos o fim do casamento começou a atuar de maneira mais intensa nos movimentos:
Fundou a primeira Associação de Trabalhadores Domésticos do país (1936).
-Trabalhou para a fundação da Frente Negra Brasileira
-Mudou-se para Campinas, e lá entrou para o movimento negro da cidade, atuando principalmente para elevar a auto estima e confiança (uma visionaria do empoderamento hein) da juventude negra, tanto que em 1957 dona Laudelina com muito trabalho conseguiu realizar uma baile coletivo de debutantes (Baile Pérola Negra) para as jovens negras da cidade.
 
Ela atuou em diversas associações e sindicatos, mas sempre esteve em defesa das domésticas e virou uma referência nacional da luta desta classe. Ela foi fundamental na conquista do direito a carteira de trabalho e previdência social da categoria na década de 70. E não descansou da luta durante toda sua vida, tanto que aos 84 anos de idade ela ainda atuava no sindicato! Queria o fim da discriminação, melhores salários, e igualdade de direitos sociais para todas as empregadas domésticas. Morreu em 1991 aos 86 anos .Grande guerreira negra, que fez de sua vida uma incansável batalha contra o sistema opressor.
 
E sabe quando foi estendido a esta categoria de trabalhadoras todos os direitos BÁSICOS?
 
Em 2013. Você não ouviu errado, vou repetir. Em 2013!
Vinte e dois anos apos a morte de Laudelina, 125 anos após o ”fim” da escravidão. Até então estas mulheres pretas seguiam trabalhando 14/15 horas diárias, recebendo o que os patrões achavam que deviam pagar e estava tudo certo. Não havia nenhuma lei específica que as amparasse.
Nisso, vem a branca cínica com sorriso no rosto e solta essa:
 
– Mas o que vcs estão reclamando? Por acaso ser empregada doméstica não é um serviço digno?
 
Respira. Não vá brigar! Seja gentil:
 
– Desculpe querida pessoa branca, não vou mais lhe incomodar com estas questões banais. Inclusive fiz uma torta de chocolate especial para vc. Prove um pedaço!
 
(Entendedores entenderão. Risos.)
 
Até porque, aos poucos este sorriso está sumindo, e se tornando choro branco, ao ver as filhas e netas destas empregadas se tornando médicas, engenheiras, juízas.. Ocupando os mesmos espaços que eles, e não seguindo o destino compulsório (dada a herança escravocrata) de se submeter aos cargos de limpeza.

 
Um dia, esta branquitude terá que limpar as próprias merdas, sem que exista uma mulher negra em miséria e desespero para aceitar o que eles quiserem oferecer em pagamento, e suportar todas as humilhações, pois os abusos ainda continuam ocorrendo.
 
Sabe como Laudelina ficou conhecida? Era chamada de terror das patroas.
 
Fica sossegada Dona Lina, a luta ainda não acabou, e a gente segue tocando o terror daqui.
 
😉
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3 comentários

  1. Nossa gente que texto maravilhoso e esclarecedor e preciso divulgar mais isso nas escolas, nas associações de grupos dos negros e negras para não esquecermos que ainda temos muita luta pela frente.

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