Pelo direito de ser uma negra despojada!

Vc sabe o que é ser uma pessoa despojada?  Que usa roupas despojadas? Essa palavra ganhou muita força nos último anos, e o significado dela é: estar com um look simples, descontraído, informal, largado, relaxado. Mas até algo banal como isso o racismo tira de pessoas negras. Mais um privilégio para lista dos brancos. Guarde essa informação. Agora vamos falar do meu avô.

Nossa mas o que seu avô tem a ver com isso? Calma que eu chego lá! Seu Julio, foi um homem negro que nasceu em 1925 (eu sempre gosto de citar datas para que possamos relacionar com a situação social da época). Ou seja trinta e sete anos após a ”abolição” da escravidão no Brasil, onde as pessoas negras foram totalmente ignoradas pelo Estado. Com isso, teve uma vida extremamente difícil, mas criou os 7 filhos de forma honesta. A lembrança afetiva que eu tenho dele era um cheiro muito forte de colônia, que se intensificava quando eu subia em seu colo, e a roupa que era sua marca: calça/camisa social muito bem passada e sapatos, carregava um pente no bolso também, para garantir que seus cabelos (que eram ondulados) estivessem sempre alinhados. Nas palavras de minha mãe : ‘Um negro muito vaidoso.’ Ele não saía vestido de outra forma, mesmo que fosse para ir a padaria.

Agora vamos pular uma geração. A mulher negra que me gerou segue o mesmo comportamento, e também nos educou assim. Nunca vi (na minha vida inteira) minha mãe sair de chinelos ou roupas mais relaxadas. Cabelos alisados, fortemente presos e bem perfumada. Ela se veste assim até para ir ao supermercado do bairro.

Última parada é aqui mesmo. Minha criação. Pelo que eu lembro (memórias e fotos) eu e meus irmãos, sempre estávamos exageradamente bem vestidos para as ocasiões mais simples. Isso comparado a outras crianças brancas. Meus cabelos estavam tão fortemente amarrados, que eu não via a hora de chegar em casa e soltar porque doía. Ai de mim se deixasse sair um fio do lugar! Nas palavras de minha mãe ‘Negro não pode andar ‘mal arrumado’.’

E isso se tornou tão interiorizado em mim, e surgia de forma tão automática, que eu achava que era um comportamento comum para todos os indivíduos independente da cor! Recordo de um dia que estava ajudando uma amiga (branca) a limpar a casa, e na carona de volta ela resolveu dar uma passada no shopping sem me avisar. Na hora que eu percebi onde eu estava, e com roupas simples de faxina e chinelos, eu senti um desespero e fiquei extremamente nervosa:

-Amiga vamos comigo em uma loja, que eu preciso trocar uma roupa que eu ganhei e ficou pequena.

– Vestida desse jeito? Jamais! Vc deveria ter me avisado! Vou esperar aqui fora.

-Deixa de ser FRESCA, eu tb to vestida assim. Não vai entrar mesmo? Nossa vc é muito caipira.

Outras situações aconteceram. E na turma de amigos (todos brancos), eu sempre fui a que ‘exagerava’ ao me arrumar para ir em ‘qualquer lugar’.

Exatamente hoje, eu estava sentada em uma sala de uma universidade pública, do curso de Engenharia, eu negra e mais 99 alunos brancos, comecei a sentir muito calor, olhei ao meu redor, TODOS estavam de chinelos, bermudas e shorts, e somente eu de calça e tênis. Por que eu estava desconfortável? Por que eu não me permitia a me vestir como eles? Questão de gosto? Estilo? Vaidade? Não. Medo do racismo. Assim como Seu Julio e minha mãe. Tentando nos proteger da forma que podíamos. Nós três, (conscientes disso ou não) vimos no vestir uma maneira de tentar nos blindar. Sabendo que sendo pretos, e entrarmos em um supermercado de chinelos nos pés, com certeza pensarão que iremos roubar comida. Se entrarmos em uma loja assim, seremos mais ignorados e perseguidos que o normal. Se eu for pra Universidade assim, vão me lançar um olhar penoso, porque provavelmente eu não tenho coisa melhor pra vestir. E isso se comprova nessas imagens que o site de busca sugere, ao digitarmos características de roupas simples, e adicionarmos a palavra branca ou negra. Brancas com seus looks despojados, e negras sendo presas ou já na cadeia.

Queremos igualdade racial em todos os sentidos e nas coisas mais banais! Os brancos precisam parar de pressupor verdades, nos acusar, nos ignorar pelo modo que nos vestimos! Além de nossa cor obviamente. Decidi que amanhã se estiver calor, pela primeira vez na vida eu vou assistir aula de chinelos nos pés. E se eu ver alguém me encarando de forma pejorativa vou responder:

-Que foi? Tenho outros sapatos em casa, mas preta também pode ser despojada.

Saio andando e deixo para trás mais uma amarra do racismo, e uma interrogação na cara da branquitude.  Essa é pra vc seu Julio.

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2 comentários

  1. É uma situação realmente estranha, quando nos conscientizamos.
    Eu só tomei plena consciência disso há uns poucos anos atrás (2 anos, talvez). Antes eu era bastante autômato: sentia que precisava me vestir bem para não sofrer algum tipo de racismo, especialmente os mais clássicos na minha vida, que são ver pessoas subitamente mudar de lado de calçada ao me avistar (tive “n” experiências nesse sentido) ou ter olhares “estranhos” (negros alvo de racismo entenderão) dirigidos a mim dos pés à cabeça.
    Ao notar que eu agia (e ainda ajo, confesso) tentando me privar de ser livre, passou um filme inteiro do motivo de ter sido assim. É uma violência que nós direcionamos a nós mesmos! Internalizamos aquilo que descordamos: de que não somos bons o bastante sem nos esforçar de forma desmedida.

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