Nós não somos macacos!

Um homem negro entra no ambiente, sentado em uma mesa vários homens brancos aparentemente o esperando. Pude ouvir o cumprimento:

– E aí seu macaco! Beleza? Tá atrasado hein!

Comecei a refletir o quão problemático é a naturalização do racismo, e que muitas vezes, por falta de conhecimento as pessoas não fazem ideia de onde vem certas associações, e a história cruel que as sustentam. Me lembrei de Ota, imediatamente. Provavelmente vc não sabe quem foi. Ele não está nos livros. A história tradicional (branca) não nos conta. Mas ele merece ser lembrado, então vamos juntos saber quem foi e o que fizeram com:

OTA BENGA, um HOMEM negro africano.

Logo você vai entender, o porquê da palavra homem estar em destaque. Originário do Congo, saiu para caçar, e quando retornou, seu povoado havia sido invadido, e sua mulher e filhos haviam sido assassinados.  Ele foi capturado pelos assassinos, e levado a um mercado de escravos. Quando isso? 1904. Atentem-se para o fato que o racismo ”científico” estava em alta. Um famoso explorador chamado Samuel Verner, buscava pigmeus (esse termo foi usado para vários grupos étnicos, que possuíam uma estatura considerada muito baixa, como os Mbuti  africanos que não crescem muito mais que 1,50 m, era o caso de Ota) para exibir-los em uma exposição no estado de Missouri nos Estados Unidos. O comprador usou um SACO DE ROUPAS para pagar por ele, e junto com mais outros homens negros africanos como ele, seguiram viagem. A exposição foi um sucesso, tanto que o diretor de um Zoológico do Bronx em Nova Iorque, que conheceu Ota nesta exposição, teve a ”brilhante” e lucrativa ideia de formar a hierarquização das raças humanas, representando o ponto máximo da pirâmide, como o homem branco, e na base os ”selvagens” africanos que seriam iguais aos primatas. Assim em 1906, Ota é levado para este Zoológico. Inicialmente ele caminhava livremente pelo local. Mas isso se tornou impossível, depois do anuncio no Jornal The New York Times, cada vez mais pessoas começaram a ir até lá para ver Ota. Em um dia atingiu mais de 40 mil visitantes. Ele aprendeu algumas palavras em inglês, e tentava se defender. A multidão branca CORRIA atrás dele e ele gritava:

– I AM A MAN! (Eu sou um homem!)

A multidão branca gargalhava. Ele gritava isso novamente. A multidão branca o empurrava, cutucava, dava rasteiras, atiravam objetos, e voltavam a gargalhar. O diretor do Zoológico preocupado com o tumulto, e com o fato de que poderia acontecer com seu ”objeto”  lucrativo, o enjaulou com os macacos. E colocou uma placa que dizia:

Ota Benga, o Pigmeu Africano

Idade 23 anos. Altura, 1 metro e 52 centímetros

Peso 46 quilos.

Trazido do Rio Kasai, Estado Livre do Congo, Centro­-Sudeste da África

Exibição organizada pelo Dr. Samuel P. Verner. Todas as tardes de setembro

Isso chegou aos ativistas negros dos Estados Unidos que se revoltaram. Foram até o Zoológico e se depararam com a tristeza de Ota atrás das grades. Prometeram fazer de tudo para tirá-lo de lá, pois era inadmissível uma pessoa negra não ser tratada como um ser humano. Só demonstrava que para aquela sociedade vidas negras não importavam. Até porque a escravidão nos E.U.A havia acabado há mais de 40 anos antes deste fato. E a branquitude achou totalmente normal e divertido, enjaular um homem negro. Inclusive não entendiam a tristeza do africano, perdeu sua família no Congo mas encontrou outra aqui. Ele era obrigado a carregar os filhotes de macacos, como se fosse seus filhos. Não havia diferença entre os macacos bebês, e os filhos dele que foram assassinados.

Para o diretor do Zoológico a situação começou a ficar insustentável, Ota estava se tornando ‘agressivo’. Começou a chutar, e morder os funcionários, lutando para  se libertar. Também o homem não podia nem descansar! Pessoas que pagassem um dinheiro extra, podiam entrar na jaula a noite enquanto ele dormia..Aliado a isso, os protestos dos negros contra essa exposição se tornaram cada vez mais intensos no país. Os ativistas apelaram a Suprema Corte também. E conseguiram tirar Ota daquela situação degradante. Foi encaminhado a um orfanato para crianças negras, e depois disso foi morar com uma senhora negra viúva que possuía 7 filhos. As  crianças o adoravam, ele contava historias da sua vida na Africa, ensinou eles a fazerem arcos e caçar esquilos. Mas a negritude que os unia não era suficiente. Ele estava a cada dia mais triste. Cantava uma canção que aprendeu que dizia: “Eu acredito que irei para casa / Senhor, tu não me ajudarás?”.

Então uma noite, Ota ficou descalços, foi em um bosque perto da casa, fez uma fogueira, e começou a cantar e dançar ao redor, em um ritual africano. Após isso, se dirigiu ao galpão da casa, onde havia escondido uma arma, e disparou um tiro em seu coração. Enfim, estava livre.

Quem apertou o gatilho, foram essas pessoas brancas, que o arrancaram da sua cultura e o DESUMANIZARAM. Associar negros a macacos, não é motivo para piadas e brincadeiras. Não é motivo para um cantor negro brasileiro, lançar uma música chamada ‘Kong’, e juntamente com o jogador de futebol mais famoso do Brasil na atualidade, se vestirem de macaco em um clipe e ironizar essa associação. Não é motivo para a branquitude levantar a bandeira somos todos macacos, e ACHAR que estão lutando contra o racismo.

É motivo para reflexão. O genocídio do povo preto continua devido a desumanização. Então, já passou da hora de PARAR de naturalizar o racismo que nos mata diariamente. Ota morreu, mas passou a vida inteira tentando provar que era um ser humano. Nós sabemos que ele foi um homem.

E vocês também sabem que não somos macacos.

Referência principal: Artigo da premiada Jornalista Pamela Newkirk para o jornal britânico The Guardian. http://jornalggn.com.br/noticia/a-historia-de-ota-benga-o-homem-enjaulado-com-macacos

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